Forma e espaço entre dois mundos: arquitetura analógica vs. arquitetura digital na alvorada do século XXI – Fernando Vázquez

Com os sistemas digitais que se desenvolvem a partir de um uso maciço da Internet e de
novos softwares de projetação e desenho que trabalham em espaços não-euclidianos a
projetação arquitetônica tem ultrapassado o mundo intuitivo e convencional da representação analógica.

Assim, não só a projetação, a representação e a arquitetura (espacial e formalmente) estão mudando, mas o perfil do arquiteto também. Para a arquitetura do século
XXI, isto é, para lidar com os problemas da espacialidade arquitetônica, dos novos materiais, das formas auto-gerativas, das múltiplas interfaces e complexos processos de construção e manipulação de dados, “desenhar” (bem ou mal) não é importante. A importância do desenhar, como ferramenta e essência do projetar nos últimos quinhentos anos, está em xeque (mate?).

Existem softwares capazes de modelar objetos, ou espaços, impossíveis de serem sequer pensados – muito menos desenhados – por seres humanos, a partir de equações matemáticas ou scripts paramétricos. Dos “antigos” paracube de Marcos Novak (1999) ou os belbs de Greg Lynn (2001) até aspectos meramente tecnológicos relacionados com os formatos BIM (Building Information Modeling) que a indústria da construção está impondo à arquitetura, a única ação humana que talvez contribua para este novo cenário produtivo seja a de “lançar os dados” pressionando a tecla “enter”.

Percebemos que as novas formas de concepção arquitetônica, através de sistemas digitais, fluidificam a maneira de trabalhar da mente do projetista. Porque ao contrário dos desenhos, as imagens de computador não são intuitiva e convencionalmente “similares” à realidade.
Sua virtualidade lhes permite exprimir a realidade numa abstração que, ao não depender
de sua materialização, amplia as possibilidades de experimentação. Mas, é justamente
esta virtualidade abstrata a que as equipara com as imagens mentais que deram origem às representações analógicas no passado. Com a vantagem, porém, de poder chegar ainda além do que nossas mentes (nossa imaginação?) poderiam chegar, graças à utilização de processos de cálculo impossíveis de realizar para nosso cérebro.

Assim, pensamos que estamos hoje, definitivamente, num ponto de virada crucial para o futuro da arquitetura. Como 500 anos atrás nossos antepassados o estiveram frente à arquitetura gótica. No entanto, devemos ser conscientes que, da mesma forma que no passado não existiu uma “transição” do Gótico para o Renascimento, talvez tampouco possamos esperar que este seja o caso agora. É importante perceber, rapidamente, que as atuais alterações (conceitual e prática) do paradigma projetual (formal e espacial) da arquitetura, que propõem as novas tecnologias, não se apresentam como uma “transição” entre duas etapas de um mesmo processo (do analógico ao digital). Pelo contrario, tais alterações parecem ser a resposta comportamental que representa uma mudança radical nos sistemas de projetação, onde os arquitetos deverão aprender a conviver não só com outros profissionais, mas com máquinas, que compartilharam com eles os méritos, ou deméritos, da concepção arquitetônica.

Devemos assumir, por tanto, que não temos um caminho que nos leva da modernidade analógica para o futuro digital. Muito menos em águas tão turbulentas. Não existe tal coisa que nos leve do analógico ao digital, ainda que ambas as instâncias possam se aproveitar uma da outra de forma pragmática e circunstancial. Por esta razão, e para fugir de uma encruzilhada que pode ser estéril, deveremos pensar, novamente, a arquitetura e reinventar seus processos de concepção formal e espacial, se o que pretendemos é enfrentar os desafios deste século que acaba de nascer. Reflexionar e debater sobre estes temas sempre será um bom começo.

Fotos de palestra de Fernando Vázquez

 

 



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Data
1 de outubro, sábado, às 15h30

Sobre Fernando Vázquez
Arquiteto pela Universidad Nacional de Buenos Aires/Facultad de Arquitectura y Urbanismo (1979); Mestre em Estética e Teoria das Artes pela Universidad Autónoma de Madrid/Instituto de Estética y Teoria de las Artes (1990); e Doutor em Arquitetura pela Universidad Politécnica de Madrid/Escuela Técnica Superior de Arquitectura (1992). Tem experiência nas áreas de teoria, história e projeto de arquitetura. Desde 2005 realiza pesquisas sobre temas de desenho e dos meios de representação na arquitetura com ênfase nas relações entre os mundos analógico e digital. Foi Professor-convidado da Universidad Autónoma Metropolitana do México/División de Ciencias y Artes para el Diseño (2006 e 2010), e desde 2010 é Professor Responsável no Curso de Arquitetura e Urbanismo e no Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Judas Tadeu de São Paulo.